domingo, 13 de julho de 2014

Por que torço pela Alemanha

Porque em 2006 eu estava lá.

Alemanha não estava nem entre os cinco primeiros lugares que eu queria conhecer na Europa. Sei lá, não me atraía. Castelos? Vejo na Inglaterra. Cidadezinhas, zona rural? Italia, França. Tradição, paisagens, cidades modernas, pra tudo isso eu tinha outras opções. Só fui por causa da Copa.

E AMEI. Mané frieza, mané antipatia. Felicíssimos com a possibilidade de receber gente do mundo inteiro e justamente mostrar sua face calorosa, amiga, acolhedora. E era sincero. A alegria e o orgulho de serem anfitriões era também o orgulho recuperado de ser quem eram. Lá não precisa de Comissão da Verdade: eles expõe os erros, as barbaridades, as chagas o tempo todo. Pedaços do muro, Museu do Holocausto. E queriam muito mostrar que também tinham horror de seu passado e respirava novos ares.

A Copa foi DUCACETE. Em todos os sentidos - conforto, organização, beleza, diversão, alegria, festa. E a seleção da Alemanha era DEMAIS.

Jogo de estreia costuma ser bem chochinho, mas o deles não foi. Jogou bonito, firme, destemido. A tal seleção da renovação, com uma porção de caras desconhecidas e jovenzinhos inexperientes. Com um jogo leve, gostoso de ver, bonito. De passes curtos e rápidos, jogadas envolventes.

Comecei dali a rever os esterótipos também sobre o futebol alemão. E a lembrar dos Beckenbauers... Jogava o fino. Presidia o Comitê Organizador da Copa com a mesma finesse. Inteligente, sensato, honesto em todos os sentidos (pelamordedeus, "não roubar" é o mínimo, ele ia muito além disso. Falava abertamente sobre as perdas e ganhos, o ônus para o país-sede e o bônus para a Fifa).

De lá para cá, além de amar a Alemanha e especialmente Berlim, um dos lugares de que mais gosto no mundo, passei a torcer mais e mais pela sua seleção. Em 2010, a evolução do estilo, sob o comando do auxiliar de Jurgen Klinsmann em 2006, Joachim Loew. E o trabalho na base também foi feito com muita seriedade, muita visão de futuro.

Então não torço pra Alemanha porque não quero ter de aguentar a gozação dos argentinos, mas porque acredito que eles merecem. Tivesse mostrado aquele futebol que a gente às vezes inveja, não teria problemas em torcer para a Argentina contra algum outro adversário. Mas pra completar, os argentinos não fizeram nada nessa Copa, vai. Cada joguinho feio... Como os nossos! Foram mais competentes em segurar a Belgica, ainda mais a Holanda. Fecharam tudo e pronto. Ok, foram modestos e inteligentes, mas não é desse futebol que eu gosto, que eu invejo, que eu quero ver campeão. Qual o jogo memorável da Argenina nessa Copa? Qual a apresentação espetacular do Messi ou dos demais?

Em 94 eu também não vibrei com nosso furebol. Nem em 2002. Já a vitória da Espanha, uau, comemorei. E pelo futebol que eu gosto de ver, vou ficar feliz se a "minha" Alemanha for campeã.

Se não for, ao menos sei que lá dificilmente vai servir para condenar todo o trabalho. Tem ranhetas, tem cornetas, mas tem gente que pensa com paixão e com inteligência no comando do futebol.

Aqui tem o Marin.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

A menina, o nódulo e a mamografia

A menina, o nódulo e a mamografia - capítulo 3

Segunda de manhã, minha caixa de entrada tinha esta mensagem da Ouvidoria da Saúde da prefeitura de São Paulo:



Pouco mais tarde, a mãe da menina recebeu um telefonema da Unidade de Saúde. “A mulher tava brava, viu”? “Explicou” para ela que 17 anos não é mesmo idade para fazer Mamografia, mas que eles iam permitir nesse caso. Agendaram para dia 8 o Ultrassom (não lembro onde seria, acho que no HC) e para o começo de julho a mamografia.

Na sequência, uma jornalista do Diário de São Paulo que soube do caso pelo Face e foi acompanhar de perto (REPÓRTER DE VERDADE é assim – fuça, descobre, se interessa, vai atrás), apareceu na Unidade de Saúde.

De lá foi para a casa da Erika, onde – adivinhe! – presenciou uma nova ligação da Unidade de Saúde, dizendo “A sra pode passar aqui para pegar a guia para o exame? Tá marcado para amanhã as 8h30”.

Quitéria, a mãe, correu para a Unidade de Saúde e me contou depois. “Olha, dez anos que eu me atendo nesse posto, é a primeira vez que vejo a diretora. Só falou me oferecer café. Disse que não precisava ter feito isso tudo, não precisava chegar a esse ponto. Eu falei pra ela “e eu ia fazer o que, aceitar e pagar o exame no laboratório particular”? Aí eles me deram a guia. A Erika ainda falou pra ela: “A gente tem a Soninha, e quem não tem”??”

***
Eu não fiz nada que um qualquer cidadão não possa fazer. Nada. Não liguei pra ninguém pedindo ajuda, postei uma nota no Face e mandei email pra Ouvidoria. Acontece que eu tenho mais seguidores do que outras pessoas, então a chance de um jornalista atento ver é maior. E imagino que quando chega uma mensagem minha à Ouvidoria, ela abala mais do que de uma pessoa com nome desconhecido. A menina minha amiga tem toda razão.

Da próxima vez, vou tentar mandar mensagem com outro nome para a Ouvidoria para ver se funciona :-(

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Vou refazer contato com a Ouvidoria e persistir na queixa.

1) COMO ASSIM tem idade mínima para fazer uma mamografia que não é “preventiva”, é de diagnóstico de um nódulo encontrado? Afinal, foi a primeira resposta que a Quitéria recebeu, antes de a jornalista aparecer por lá. Ela NÃO QUER ser exceção. Segundo o próprio Ministério da Saúde, NÃO TEM MESMO idade mínima para esse caso!

 

(Blog da Saúde, oficial do Ministério)

Se não fosse assim, o médico da UBS (“o cubano”, como elas disseram) tinha de ser instruído para nem pedir... (ESPERO QUE NÃO FAÇAM ISSO! Não digam aos médicos que eles não podem fazê-lo)

2) Não recebemos nenhuma resposta por escrito, como demandava o email da Ouvidoria.

3) E os prazos? Continuam aquela coisa... Sem a queixa, seriam semanas de espera pelo exame, outras tantas pelo resultado.

4) Geo-referenciamento, oi? Elas moram na Brasilandia. O exame foi agendado no Jaçanã. Se a gente não arruma dinheiro pra condução, elas não conseguem chegar lá.

5) Informaram que o resultado do exame sai daqui a 15 dias e aí ela ia ter de marcar o retorno à UBS. Depois de constatar o tamanho do nódulo, a técnica que fez o exame disse que ia tentar pedir para a médica “passar na frente”.

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PS: parei de “esconder” o nome da menina porque, se havia algum receio de perseguição, já era... As queixas da Ouvidoria da Saúde são SEMPRE encaminhadas para a unidade com nome, endereço e telefone de quem fez a reclamação. Eu uma vez protestei contra uma consulta na Ginecologista desmarcada na última hora (na verdade, só fiquei sabendo quando cheguei lá para ser atendida...) porque, segundo a funcionária, “a médica não vem de quarta-feira” ou qualquer coisa assim.

Não era um caso particular, era algo que afetava todas as usuárias. Mas lá estava meu nome e telefone, e uma funcionária também me ligou “muito brava” para “explicar” que a ginecologista também trabalha em outro lugar. E imaginem vocês a frieza gélida com que fui recebida quando finalmente chegou o dia da minha consulta... E se não fosse comigo e sim com uma Erika qualquer, aposto que seria ainda pior.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Coisas muito loucas dessa greve

- A Globo está fazendo cobertura especial ao vivo ao longo de toda programação. Como se tivesse um fato novo a cada cinco minutos. Até a novela ficou mais curta ontem (coisa que só acontece em caso de morte de gente “importante” e olhe lá).

- Nunca se ouviu tanto a população na TV para mostrar o óbvio - que a primeira, segunda e a centésima milésima vítima de uma paralisação de setor essencial é quem usa o serviço. Centenas de depoimentos “andei três horas, perdi o trabalho, perdi a consulta”. Como se não fosse assim em TODA greve, em que normalmente pegam um ou dois depoimentos e pronto.

- Nunca as autoridades reagiram tão prontamente em uníssono: “É SABOTAGEM! É GUERRILHA”! Até o prefeito, normalmente desaparecido, CONVOCOU UMA COLETIVA. Foi severo, condenou o movimento, “não se pode prejudicar a população assim, sem avisar”.

- Nunca um promotor do Ministério Público ficou tão irado e veio a público com tanta veemência dizer que “É BADERNA”, é coisa de meia-dúzia, e EXIGIR ação policial para identificar e processar criminalmente os responsáveis. Não foi assim em nenhuma greve de polícias, metroviários, da APEOESP, manifestações de Black Blocs, estudantes universitários ou do MPL. Mesmo quando agrediram, espancaram, destruíram patrimônio público e causaram imenso prejuízo econômico ao comércio e serviços.

(Não aguento, tenho de dar nome ao boi: o Promotor de Habitação e Urbanismo Mauricio Ribeiro Lopes, era IMPLACÁVEL nas suas cobranças à gestão anterior, do outrora inimigo (e hoje aliado) Gilberto Kassab. Exigia o possível, o impossível, o milagroso. Na última reunião com a Secretaria de Habitação antes da posse do Haddad, rasgou a fantasia e esculachou: “Ainda bem que esse governo está terminando”. Esse é o Promotor que NUNCA vi se manifestando sobre atos de vandalismo e violência, bloqueios que impedem o direito de ir-e-vir em estradas, avenidas e marginais. Agora está in-dig-na-do com os abusos e culpa a polícia por não tirar os ônibus da rua e não prender ninguém).

- Manifestação por melhores salários, contra a violência policial, pelo direito à moradia e contra a especulação imobiliária, em protesto contra mais um atropelamento, contra a Copa, contra o capital estrangeiro, a violência contra mulheres e crianças, a corrupção, a impunidade, o técnico do Corinthians: todas acabam ou começam tacando fogo em ônibus. Foram centenas só em 2014. Agora é uma paralisação de ônibus e o máximo que fizeram contra os veículos foi furar pneu.

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Datafolha soltou uma pesquisa falando que aumentou muito a porcentagem da população que condena as manifestações e dizem que elas mais prejudicam do que beneficiam.

Ponto para os governos e governantes! Bom para a Fifa, os patrocinadores e as emissoras oficiais!

#Valeu Black Blocs, manifestantes abusados, manifestações abusivas! Vocês conseguiram!