quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

O juiz, o Porsche e o crime perfeito

Minha primeira reação (e a de muita gente) à notícia de que o juiz que mandou apreender bens do Eike Batista foi pego dirigindo seu Porsche foi: "Filha da p., ele desmoraliza o processo todo"!

E quem disse que não foi essa a intenção? Se não me engano, ainda não foi modificada a norma que estabelece que a punição máxima a um juiz é a aposentadoria compulsória. Imagine que bom negócio: presta um serviço à defesa do Eike, certamente bem remunerado, e fica desmoralizado (até parece que ele se importa).

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Programa de Metas do Haddad - A Real em 123 posts

Meta 1



O prefeito diz: "Foram inseridas 349 mil famílias no Cadastro Único, superando a meta estabelecida de 280 mil".

PROBLEMAS:

1) Desde o início, a definição e justificativa da meta:

Por que "280 mil famílias"? De onde saiu esse número?
Como poderíamos verificar o cumprimento da meta, já que são números grandiosos e pouco palpáveis?
Qual o verdadeiro impacto (eficácia/efetividade) da mera inclusão de famílias no Cadastro?
É correto dizer que se trata de um "novo serviço ou benefício"?
A inclusão atende ao objetivo de "superar a extrema pobreza na cidade de São Paulo, elevando a renda, promovendo a inclusão produtiva e o acesso a serviços públicos para todos"?



O Cadastro Único em si, como se vê, é apenas um grande Banco de Dados, não é sinônimo de recebimento de serviços ou benefícios. A única meta razoável seria: "inclusão de TODAS as famílias que atendem os requisitos para fazerem parte do Cadastro Único". É o mínimo que precisa acontecer: que elas existam oficialmente nos registros oficiais de pobres e miseráveis.

2) O cálculo é "meio" confuso. Compare as seguintes informações, todas elas prestadas pela própria prefeitura:

- "O número de famílias cadastradas em dezembro de 2012 era de 493 mil. Em julho de 2013 este número passou para 709.595, chegando a 922.259 em julho de 2014, data da última atualização do CadÚnico".

Portanto, entre dezembro de 2012 e julho de 2014, o número de famílias cadastradas aumentou em 499 mil, não em 349 mil. Qual número é o certo? Por que há essa diferença de 150 mil famílias entre um cálculo e outro?

- Na página do Observatório Social da SMADS , que dá publicidade aos dados oficiais sobre os programas da Assistência Social, a informação mais recente é a de janeiro de 2013 (!): 520.515 famílias estavam no Cadastro Único.




(Pra complicar ainda mais, o gráfico de janeiro de 2013 foi "elaborado" em "julho de 2014"!)

Combinando as fontes (ambas oficiais), temos a seguinte evolução:



Se considerarmos como ponto de partida os dados de janeiro de 2013 (não os de dezembro, como faz o site do Plano de Metas):

- De janeiro a julho de 2013, entraram 198 mil famílias. 
- De julho de 2013 a julho de 2014, entraram 212 mil famílias.
Total: 410 mil famílias inseridas na gestão Haddad.
Também não bate com o acréscimo anunciado.

- O cronograma também tem inconsistências (aka "é uma zona"):

Assim está no portal do Programa de Metas:



Na atualização cadastral de julho de 2013, 137.187 famílias haviam sido incluídas (número que não condiz com nenhum dos cálculos acima).



As duas atualizações realizadas em 2014 registram a entrada de 125.796 famílias  (janeiro) e 86,868 famílias (julho).




350 entrevistadores foram contratados em novembro de 2013 para a realização de novos cadastros, quando 137 mil famílias já tinham sido incluídas. No total, 572 pessoas se envolveram diretamente com o cadastramento - apenas para dar uma ideia de volume, embora o trabalho de cada um seja evidentemente diferente, dá uma média de 610 famílias por cadastrador.

3) A distribuição geográfica das inserções deixa algumas dúvidas sobre sua correção.

A prefeitura se comprometeu com "Prioridade para implementação das ações nas Subprefeituras com maior concentração de famílias em situação de extrema pobreza e pobreza". Cidade Tiradentes, por exemplo, região muito pobre da cidade, teve menos inserções no cadastro do que a Lapa. Pode ser que realmente o cadastramento na Lapa estivesse mais defasado; é preciso esclarecer.



Também chama atenção o fato de Parelheiros e Mooca terem tido famílias excluídas do Cadastro, como mostra a tabela acima. Por que?

4) Recursos empregados:



Essa consulta foi feita hoje, 20 de fevereiro de 2015. O custo previsto era de R$ 103 milhões. O valor executado em 2013 foi de R$ 9,4 milhões (é o dado mais recente e ainda está "em atualização"). Ou seja: ou o gasto em 2014 foi de 94 milhões (dez vezes maior que em 2013), ou o orçamento inicial foi absurdamente maior do que o efetivamente realizado. Como foi possível errar tanto?

Também não fica claro como esses nove milhões foram empregados.

CONCLUSÕES:

O prefeito afirma que superou a meta estabelecida e na metade do prazo previsto. Diz que gastou 1/10 do que estimava. Mas há uma série de incoerências nos números apresentados (as contas "não fecham"), o emprego dos recursos não foi explicado e, acima de tudo, o verdadeiro benefício para a população não é claro. Centenas de milhares de famílias foram incluídas no Cadastro Único, e...?

Preparei uma serie de perguntas para o e-sic, o Sistema de Informações, e também para a Coordenadora do Observatório de Políticas Sociais - COPS, responsável pela apuração e divulgação dos dados oficiais, para ver se consigo esclarecer as dúvidas.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Você sabe quanto custa o gás?

Um botijão vazio sai por R$160,00.

"Tem até por $20, mas aí não compro não", disse a Nena, da Associação Futuro Promissor.

"Não dá pra se arriscar comprando alguma coisa meia boca, né?".

"Não é por isso não, é porque é roubado".

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Foi a única que se preocupou com isso. Uma liderança comunitária digna de medalha de honra ao mérito. Não que outras mais "flexíveis" não tenham também muito valor, mas quando você teima em certos princípios (tipo "não recorrer à bandidagem"), a maratona vira prova de IronMan.

TODO mundo pra quem perguntamos se tinha botijão vazio para doar ou emprestar respondeu: "Você encontra por R$40/R$20/na Feira do Rolo".

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Por coincidência, ontem vieram pedir ajuda para conseguir um botijão de gás duas mulheres que não se conhecem mas estão exatamente no mesmo pé: acabaram de se separar de maridos violentos e estão recomeçando do zero. Ou melhor, precisam se esforçar para chegar ao zero, inclusive porque ficaram com filhos para cuidar sozinhas (grande novidade).

As duas são lá da ZN de São Paulo: Brasilandia, Cachoeirinha, por ali.

Uma apanhava do marido a torto e direito. Trouxe o irmão do Rio Grande do Norte para ajudar na sua proteção, mas ele "entrou na pedra e ainda batia nela junto com o marido". Se ela denunciasse, ele "acabava com ela". Uma vizinha pediu socorro onde sabia que ia encontrar: no crime. Deram um pau no cara, juraram, ela se viu livre do traste mas está sem nada. Consegue uma coisa daqui, outra dali, agora precisa de um botijão de gás.

A outra "fez o marido, assim dizer: ela carregou a pizzaria nas costas. Se hoje ele tem alguma coisa, é por causa do trabalho dela". Ele também "batia feio" na mulher, "até na frente dos clientes ele humilhava ela". A muito custo conseguiu se separar, mas ficou apenas com um imóvel ~gentilmente~ cedido em um predio simples no Jardim Paulistano e o filho. De resto, NADA NADA NADA. "A roupa do corpo". Algumas coisas já conseguiram, mas o bendito botijão de gás ainda não.

- Ela tinha que por ele no pau. Nem pro filho ele dá nada?!
- Ele diz que mata ela.
- Claro que diz. Foda-se, vai pra cima.

Não, Sonia, você não está entendendo. Não é aquele falar grosso de homem folgado que ameaça a mulher para que ela se encolha (o que já é bem grave). "Ele fala pra ela: Já matei uma, não me custa nada. E matou mesmo a ex-mulher dele. Era quando ele tava na cadeia que essa montou e manteve a pizzaria que hoje sustenta ele. Fora as casas de aluguel que ele tem".

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Bom, se alguém tiver um botijão de gás para doar... Manda um email que a gente dá um jeito de ir buscar: rp@soninha.com.br

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(No bairro onde eu moro tem gás encanado. MUITO mais barato, MUITO mais prático. Será que existe alguma meta de canalização para a cidade toda??)