Era pouco mais de meia-noite e chovia. A primeira visão de Istambul não foi especialmente memorável. Eu esperava encontrar, de cara, sinais de história milenar para todo lado e ares de Expresso do Oriente. Mas o que eu via ao longo das avenidas eram prédios "modernos" à moda "antiga", como nas cidades do litoral de São Paulo (Santos, São Vicente). Nada do charme enigmático da minha imaginação.
Aos poucos foram aparecendo as belezas esperadas (minaretes, pontes) e as inesperadas, como uma profusão de bandeirinhas ao longo de uma avenida (sobras da comemoração do dia da Proclamação da República) e painéis fotográficos iluminados por toda a extensão de uma muralha. Nos dois últimos casos, homenagens a Kemal Atatürk, o maior herói da pátria.
A Wikipedia me facilita o trabalho de explicar quem foi ele (estou para fazer um depósito em contribuição a ela...)
Mustafa Kemal Atatürk (Selânik, 1881 — Istambul, 10 de novembro de 1938) foi um oficial do exército, estadista revolucionário e fundador da República da Turquia, assim como o seu primeiro presidente. (...) Suas campanhas militares bem-sucedidas asseguraram a liberação do país e a proclamação da república no lugar do antigo governo imperial otomano. (...) Como primeiro presidente da Turquia, Atatürk embarcou num ambicioso programa de reformas políticas, econômicas e culturais. Um admirador do Iluminismo, Atatürk procurou transformar as ruínas do Império Otomano numa nação-Estado democrática e secular. Os princípios das reformas de Atatürk costumam ser chamados de "kemalismo", e continuam a formar a fundação política do Estado turco moderno.
Istambul tem uma história tumultuada como poucos lugares no planeta (e a concorrência é pesada). É que ela começa longe... “Em 2008, durante as obras de construção da estação de metrô Yenikapı e do túnel Marmaray, na península situada no lado europeu, encontrou-se um assentamento neolítico até então desconhecido, datado como sendo de cerca de 6500 a.C.”. Depois de povoados da época dos fenícios, registros de tribos trácias etc, foi fundada, por colonos gregos, a cidade de Bizâncio, já em 600 e tanto antes de Cristo.
Bizâncio foi tomada e perdida por persas, espartanos, atenienses, macedônios, celtas...
No século II a.C. vieram os romanos, que primeiro a reconheceram como aliada e depois acabaram se apossando dela. A cidade foi destruída por conta de uma disputa entre os próprios romanos . Reconstruída outra vez, rebatizada (Augusta Antonina, Nova Roma), foi estabelecida como capital do Império Romano pelo imperador Constantino I. Império que se dividiu alguns anos depois; a cidade, mais conhecida como Constantinopla (o nome Nova Roma não chegou a pegar...), permaneceu como capital do Império Romano do Oriente, depois Império Bizantino (referência, claro, à colônia de Bizâncio, ocupação pioneira da região).
“A combinação do imperialismo e a posição estratégica desempenhariam um papel importante, como encruzilhada entre dois continentes (Europa e Ásia) e caminho para a África e outros territórios (...) em termos de comércio, cultura, diplomacia e estratégia. Em um enclave tão valioso, Constantinopla era capaz de controlar a rota entre a Ásia e Europa, assim como a passagem do Mar Mediterrâneo ao Mar Negro. Embora a parte ocidental do Império Romano tivesse entrado numa crise econômica, comercial, política e demográfica, Constantinopla manteve a sua posição durante séculos, convertendo-se na grande metrópole européia medieval”
Manter a posição “durante séculos” não quer dizer que não tenha havido mais um milhão de sobressaltos. Depois eu volto a eles.


