Minha reivindicação pacífica: não desaprovem sem ler, por favor.
1) Sobre os motivos: “Tudo isso por causa de R$0,20”? Não importa o motivo, as pessoas tem o direito, em regimes democráticos, de se manifestar. Na Ditadura, nem 3 podiam ser reunir na esquina para o que quer que fosse; na Democracia, não existe a lista de motivos “permitidos” para manifestação.
Apoio desde sempre a Marcha da Maconha porque sou a favor da legalização e quero exigir que ao menos a lei seja discutida. Não apoio a redução da maioridade penal, mas não tenho o direito de impedir que as pessoas se organizem para pedir. Legalização ou criminalização do aborto, contra ou a favor a União LGBT... Quem “decide” o que se pode ou não pode defender em manifestação? Não é o governo. Não é “a maioria”. Democracia é o direito à divergência e à manifestação da opinião. Mesmo que seja da minoria. (Apenas... a Constituição pode decidir. Mas isso é tema para outro dia).
Também não adianta querer colocar a manifestação em ordem de prioridade: “Estão protestando contra [violência contra animais, construção de um parque, passagem do ônibus], por que não falam nada sobre [superlotação carcerária, corrupção no Congresso, caos na Saúde]”? Não existe a escala “enquanto não reclamarem disso, não podem exigir aquilo”.
2) Sobre quem vai: burgueses, vagabundos, filhinhos-de-papai, crentes, viados, maconheiros, reacionários, alienados, oportunistas... Também não existe a lista de quem pode e quem não tem o direito de se manifestar. A única regra é “como”.
3) Sobre negociar hora e local: por que não? Manifestação precisa de volume e visibilidade. Não precisa necessariamente causar transtornos na vida da cidade.
Quando os manifestantes não são assim tão numerosos, tem de chamar atenção de alguma maneira - mas parar o trânsito é apenas uma das maneiras. O Greenpeace é mestre nos outros métodos: pendura uma faixa enorme na chaminé de uma fábrica, pinta focas com spray... As ucranianas tiram a roupa, os argentinos batem panela...
Os motoboys que pararam a cidade um tempo atrás teriam “agitado” a cidade mesmo que ocupassem duas faixas da marginal por vários quilômetros. A imagem do alto seria impressionante.
“Ah, mas não dá pra controlar”. Não dá pra ficar todo mundo o tempo todo “dentro do combinado”, mas isso vale para qualquer situação de multidão. Jogo de futebol, show, bicicletada, passeata. Sempre vai haver um ou dois ou dez que vão se lixar para o combinado. Nem por isso você tenta extinguir os eventos com multidão – até porque só piora. Aí sim o confronto vira o ponto de partida, não o desvio do que foi acordado.
Mas se as “lideranças” estiverem de acordo – mesmo que não haja um “líder” formalmente constituído, existem lideranças sim, que são ouvidas pelas pessoas – dá pra coibir os desvios. E no caso de abusos, aí não tem jeito – pra isso tem polícia. Pra proteger os manifestantes pacíficos dos violentos. Os não-manifestantes dos manifestantes e vice-versa. Imagine se não tivesse polícia na Parada Gay – ia morrer gente em confronto com carecas e outras gangues.
A Parada Gay acontece em hora e local marcado. Polícia, GCM, CET, SAMU estão lá pra garantir a realização. Hoje parece que Parada Gay é manifestação “tudo bem”, sem resistência, mas antes não era – e, se bobear, deixa de ser. Primeiro de Maio tem hora e lugar – a CUT vai para um lado, a Força pra outro, a UGT pra outro... Marcha para Jesus também. Diretas Já foram em lugar marcado. Mesmo sem precisar “institucionalizar” tanto – montar palanque, credo, quem quereria isso no ato de hoje? – dá sim para combinar com as autoridades e fazer acordos: “nós desviamos o trânsito, informamos a população para que evite passar de carro naquela região naquele horário, teremos PMs homens e mulheres postados diante do comércio e das estações de metrô para evitar vandalismo, ambulâncias serão estacionadas nas transversais ao longo da avenida, haverá pontos de encontro para pessoas (especialmente crianças) que se percam, teremos banheiros químicos ao longo do caminho. Vocês garantem que não vão fechar a saída do Terminal de Ônibus e que o corredor vai continuar funcionando”.
“Impossível”. Não, não é. Pode levar tempo para aprenderemos todos; será mais fácil em algumas situações que em outras. Mas a multidão originalmente pacífica exerce poder de coerção. Na arquibancada, hoje em dia, o cara que tacar uma garrafa em campo corre o risco de apanhar da própria torcida – precisa ter a polícia lá para tirar o cara e levar detido.
E para que a multidão seja “originalmente”, majoritariamente pacífica, ela precisa ser diversificada. Com mais famílias, mulheres, crianças, trabalhadores e estudantes, militantes partidários e pessoas que estão nem aí pra partidos políticos. E uma coisa leva a outra – quanto mais “combinado” com as autoridades, mais essas pessoas da “sociedade civil desorganizada” se sentem estimuladas a ir. Quanto mais elas forem, menor a probabilidade de “arruaça”. Então radicalizar antecipadamente – “Não negociamos trajeto”, seja pelo lado do movimento ou da polícia – afasta as pessoas “comuns”, reduz a diversidade e favorece a beligerância.
Outra coisa: quem é da manifestação sempre vai desqualificar os que a desaprovam. “Burgueses”, “alienados”, “acomodados” etc. Mas a minha empregada, que mora na altura do número 10.000 da M’Boi Mirim (aka “longe pra cacete”), ODEIA manifestação. Não porque acha que o transporte tá bom do jeito que tá, mas porque depois de sair de casa às 4 da manhã e trabalhar o dia inteiro, quer MORRER quando fica presa no ônibus lotado e desesperada porque já passou da hora da creche fechar.
Deixar de tornar a vida de muitos um inferno, sejam “burgueses” ou “trabalhadores”, não enfraquece a manifestação. Ao contrário, aumenta o apoio a ela, ou ao menos a simpatia!
4) Sobre excessos: abuso é abuso, violência é violência. Venha de que lado vier. Enquanto as pessoas aceitarem que o seu lado se exceda, não teremos paz, respeito, segurança. O jovem revoltado da periferia não tem o direito de apedrejar um ônibus. O policial mal remunerado não tem o direito de chutar um cara caído. O moço humilhado todo dia não pode tacar um coquetel molotov na polícia. O policial que precisa esconder a farda quando volta pra casa na periferia não pode esfregar a cara do moleque no chão porque ele “foi folgado”.
A gente pode e é bom tentar entender as causas de tudo. Sabemos que o abusado de ontem é o abusador de hoje. Quem hoje é violento contra os filhos foi vítima de pai violento. Mas nem por isso aceitamos que um homem espanque a mulher porque “o ambiente em que ele foi criado, as péssimas condições de vida que ele tem hoje”...
Violência: não. Eu sou assim. Admitir que na passeata tinha gente que foi sim pra cima da polícia, que tinha paus e pedras na mochila e que não concordamos com isso; admitir, por parte do comando da polícia, que houve sim abusos e excessos e punir os responsáveis e culpados não é deslegitimar o movimento nem desmoralizar a instituição. É o contrário.
5) Sobre o Choque: governo anunciou que hoje ele não estará. ISSO! “Mas e se sair quebra-quebra”? Ele é o ÚLTIMO recurso. Se houver um conflito DEFLAGRADO, aí o Choque é chamado. Não serve mesmo para dialogar. Então não tem de ir para a rua “preventivamente”, para ver se os manifestantes “cumprem o acordo”. Não tem de ir para cima da manifestação porque “tem uns caras que só vem para depredar”. Não pode sair atirando gás, pimenta e bala de borracha e avançando com seus escudos e carros blindados porque entre aquelas centenas de pessoas tem os vândalos encapuzados tacando pedra na polícia. Aí sim o conflito é deflagrado, perde totalmente o controle, se torna muito, mas muito mais perigoso.
Com tropa de choque não se negocia, então por isso ela não pode ser da linha de frente na rua. Ela é da retaguarda e mesmo assim está lá para defender, não para atacar. Ela é fortemente protegida e armada, não pode confrontar grupos de pessoas na rua. Mesmo que as pessoas fossem DISPOSTAS ao confronto, a extrapolar limites toleráveis (uma turba não pode entrar à força no Palácio do Planalto para “dar um recado”): não são exércitos em guerra. Forças armadas não podem atacar civis. Tem, em situações extremas, de conter e dispersar. Atacar, jamais.
E a bala de borracha foi uma invenção sem cabimento que não serve pra nada em uma manifestação a não ser causar ferimentos que podem ser menos graves ou mais graves. É perigoso e não ajuda em NADA. Em multidão não tem de usar projétil nenhum.